Seminário O Futuro das Águas – Cobertura completa

Por Bruno Dorigatti

O primeiro dia do Seminário Futuro das Águas tratou dos impasses e perspectivas, abordando os aspectos políticos, econômicos e sociais relativos às reservas de água doce no mundo e no Brasil.

Futuro das Águas: Impasses e perspectivas | Mesa 1

Luiz Claudio Costa, doutor em química e reitor da Universidade de Viçosa (MG) abriu a mesa afirmando que a crise ambiental é mais grave que a falida crise econômica, cuja bolha estourou em setembro do ano passado. As projeções indicam que, ao final do século XXI, a demanda vai superar a oferta, disse Costa. “Não há dúvidas sobre as mudanças climáticas, cientificamente, apesar de algumas vozes ainda se posicionarem contra. É como uma nave em andamento, só precisamos saber onde vamos chegar. Há cenários mais otimistas e outros mais pessimistas. Isso depende da nossa postura. Devemos decidir que modelo vamos adotar, se aquele que nos foi vendido como um sonho, ou se vamos buscar um modelo mais sustentável.”

Um ponto fundamental para Costa é que não há mudanças climáticas, mas mudanças na atitude humana. Ele então apresentou uma série de dados estatísticos que apontam um crescimento desproporcional no uso da água, no consumo de fertilizantes, no uso de papel, da população urbana, do número de restaurantes McDonald’s. “Na realidade, nós tivemos uma mudança comportamental fascinante, sem considerar a nossa relação com a terra. As mudanças climáticas são uma resposta a esse comportamento. Nunca na história da nossa humanidade o nível de CO2, gás metano e óxido nitroso foi tão alto, pela ação humana – nós já tivemos, evidentemente, por ações naturais.”

A quantidade de água existente na atmosfera, nos solos e nos oceanos é estável. Muitos questionam, mas as mudanças climáticas não vão alterar este quadro. Segundo Costa, um dos gases que mais causa mudanças climáticas é a água – o vapor d’água, mais precisamente – que tem capacidade imensa de absorver a radição de ondas longas. “O aquecimento significa maior temperatura, maior capacidade de reter água da atmosfera, maior evaporação, maior umidade atmosférica. O efeito estufa potencializa isso tudo, temos o aumento da intensidade de chuvas. E já estamos observando, como conseqûëncia, secas em excesso e inundações em excesso. Vamos ter com mais freqûëncia a ocorrência dos extremos. Isso tudo tem a ver com a disponibilidade de água.”

Ao final de sua fala, Costa apontou a inércia humana como fator preponderante para que o quadro siga inalterado, ou alterado de forma muito lenta. “Participei em 1989 da formulação do Protocolo de Kyoto. Tínhamos a idéia do problema. Aí você reconhece o problema, faz os acordos, mas, enquanto isso, o tempo vai passando e a situação da terra muda. E enquanto não tomamos as decisões necessárias, alguém está pagando o preço. Tecnologia disponível nós temos, o que precisamos é do modelo adequado.” E finalizou citando Mahatma Gandhi, que, muito antes dessas preocupações, havia afirmado: “A terra possui o suficiente para o sustento de todos, mas não para a ganância de uns poucos”. Vivemos a vingança do excesso.

A seguir, o deputado federal Fernado Gabeira (PV-RJ) falou de alguns problemas e perspectivas, começando pela classificação do acesso à água como um direito humano, o que justificaria a intervenção em outro país que dificultasse esse acesso. O Brasil, não aceita essa tese, considera a água um direito básico, uma necessidade. “A posição brasileira deriva do fato de termos grandes reservas de água e termos também medo de sermos ocupados, invadidos a propósito de um mau uso da água, pois ela é o elemento estratégico do século XXI. As guerras que nós vimos no século XX em torno do petróleo talvez se desloquem para a questão da água. Talvez no futuro cheguemos a uma governança mundial da água, como já temos em parte da água na Antártida. Temos que tomar todas as precauções para que ela não seja objeto de guerra.”

O Brasil possui atualmente três leis que tratam da água. A primeira instituiu em 1997 o Sistema Nacional de Recursos Hídricos. Outra, criou a Agência Nacional da Água. E há o Projeto de Lei 1616, que estabelece o pagamento pelo uso da água. “Essa terceira questão é muito importante, pois vai, de certa maneira, obrigar as pessoas e as empresas, sobretudo, a terem um comportamento mais comedido diante da água. Este projeto já era para estar funcionando, mas ainda há algumas dúvidas. No projeto do qual sou relator, afirmo que o dinheiro do pagamento pela água tem que ser revertido integralmente para a bacia, para que você possa manter o rio plantar árvores nas encostas. Mas o governo federal tem certa resistência. Acredita que o dinheiro deva ir para o Tesouro Nacional para depois retornar para a bacia. Sabemos que isso demora muito e às vezes não chega”, afirmou Gabeira.

De qualquer maneira, começamos a implementar os Comitês de Bacias Hidrográficas, que decide as questões ligadas àquela bacia hidrográfica da qual faz parte e é composto pelos governos federal, estadual e municipal, além dos usuários e de organizações não-governamentais (ongs). Um instrumento bastante democrático, na opinião do deputado, e que pode apresentar novidades, pois você vai estar governando uma região a partir de um exame completo da questão da água. A idéia de criar um Governo do Pantanal, por exemplo, é que este coincidiria com um Comitê de Bacia.

Outra questão levantada por Gabeira foi a exportação de água – os Estados Unidos têm grande necessidade de importá-la. “No momento, acho que já existe pirataria, levam muito água do Brasil e trazem a água de lastro, nas embarcações, que causam muitos problemas.” Além disso, a suposição de que o Brasil tem muita água distribuída de forma equânime é equivocada. Assim como na distribuição de riquezas, a água não é dividida de forma harmônica. “Temos muita água, mas há regiões do Brasil que vivem com o mínimo ou menos que o mínimo necessário. Aí entram as soluções para isso. Como fazer com que o Nordeste tenha água? Existe o debate a respeito da transposição do Rio Francisco. O projeto não resolve todo o problema – e este não se limita a transpor as águas, envolve o depósito, a distribuição dela. É um problema mais complexo que este, mas também não sei se é o melhor caminho. Não podemos nos fixar somente em grandes obras de engenharia, é preciso pensar em como se distribui, armazena e se usa a água. Temos hoje um desperdício de quase 40% da água tratada, é uma coisa espantosa. Podemos estimular as pessoas a armazenar água da chuva nos prédios, dando descontos no IPTU, por exemplo. A questão econômica é importante, as pessoas prestam atenção quando mexe no bolso.”

Por fim, segundo Gabeira, os políticos não se interessam pelo tema, é preciso um grande  trabalho cultural, não só com eles, mas com toda a sociedade. Instituir, por exemplo, disciplinas no ensino médio e fundamental que dêem rudimentos de defesa civil, como já vem sendo trabalhado na questão dos grandes desastres,. A água deve seguir o mesmo caminho nas salas de aula.

Guido Gelli, presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, comentou o cuidado com os rios que existe na Europa, mas quase nulo no Brasil, onde não há herança dessa tradição, apesar da colonização européia que tivemos. “Isso pode ter haver com o fato de o Brasil sempre ter sido objeto de grande cobiça, de interesses econômicos e exploração. O próprio nome do país se origina do primeiro grande produto explorado e enviado para a Europa. Os rios sempre foram considerados depositários de rejeitos.”

Essa cultura de descaso com o rio pode ser percebido analisando o Rio Carioca. Ele leva o nome daqueles nascidos no Rio de Janeiro, tem sua origem nas Paineiras, e pode ser visto pela última vez no Largo dos Boticários, no Comes Velho. Dali em diante, vira um valão, por todo o bairro de Laranjeiras, até desaguar na Praia do Flamengo, na Baía de Guanabara. Gelli reafirmou o que Gabeira havia colocado, de que somente quando começar a pesar no bolso as pessoas vão dar maior atenção à questão. Outro caminho que deve ser colocado em prática em breve é a instalação de hidrômetros individuais em todas as residências – hoje em dia, os prédios contam com um hidrômetro somente. “Isso vai fazer com que as pessoas tenham uma noção do seu valor”, ainda que atualmente paguemos apenas pelo fornecimento e não pela água em si.

Sobre a transposição do Rio São Francisco, Gelli acredita haver falta de cohecimento  e debate. “Ela mexeria em 3% do total do rio. Há pessoas fazendo alarde sem entrar no mérito técnico da questão. A mídia destaca a greve de fome do bispo, mas não analisa através do debate entre os cientistas que se dedicam ao tema. Sem essa discussão mais técnica não é possível decidir”, concluiu.

Participou ainda desta primeira mesa Paulo Canedo, engenheiro da Coppe/UFRJ e co-autor do livro O espírito das águas (Novas Direções, 2008). Canedo apresentou uma quantidade enorme de dados e estatísticas sobre o tema e vamos analisá-los no post seguinte.

Fechando o primeiro dia do Seminário Futuro das Águas, Paulo Canedo, engenheiro da Coppe/UFRJ e co-autor do livro O espírito das águas (Novas Direções, 2008) apresentou dados, mapas e estatísticas sobre o tema. Apesar de ser um quadro muito preocupante para o planeta, nosso país tem tudo para aproveitar a condição especial de grandes reservas de água doce, as maiores do mundo, e sair da atual situação crítica em algumas regiões do país.

Segundo ele, a quantidade de chuva anual no planeta é imutável, não se perde. Ela evapora, se precipita, mas está dentro do sistema atmosférico. Em seguida, apresentou mapas com as precipitações no planeta. A América do Sul é uma das regiões com mais precipitações. Já a América do Norte resolveu seu problema natural de carência de precipitações através de transposições de rios. “Transpor água pode ser uma racionalidade humana, de suprir regiões onde a chuva não chega com águas que sobram em regiões que choveu muito. Este é um bom exemplo de que os norte-americanos conseguiram dar a volta por cima em um problema natural, a carência de chuvas”, afirmou Canedo, destacando o Canadá como o país que mais realizou este tipo de obra. A Ásia e a África, por sua vez, são regiões que enfrentam sérios e crescentes problemas. A seguir, o engenheiro mostrou dados relativos à quantidade de água por habitantes, onde a situação mais premente encontra-se na Índia, no Oriente Médio e no norte da África.

A Revolução Industrial já foi apontada como a grande vilã quando se fala em poluição das águas. Hoje, esse posto é ocupado pela poluição doméstica. “As indústrias fizeram parte do seu trabalho, mas os seres humanos não fizeram, o que ocasiona a falta de tratamento de esgoto antes de ser lançado nas águas. A qualidade de saneamento do planeta é adequada na América do Norte, Austrália e Europa. Já aqui no Brasil temos um plano de saneamento precário”, acrescentou. Canedo mencionou a fala do deputado Fernando Gabeira, para quem poderá haver conflitos bélicos motivados por questões hídricas. “Não sei se chegaremos a conflitos bélicos, mas haverá conflitos diplomáticos com absoluta certeza”, frisou o engenheiro da Coppe, que citou alguns já em desenvolvimento, como na região do Mar Aral, na Ásia, na região da bacia dos Rios Tigre e Eufrates, que corta a Turquia, Síria, Iraque e Irã, e na região do Rio Nilo, que atravessa oito países africanos, além do Egito.

Em seguida, Canedo apresentou a relação entre a concentração populacional e a quantidade de água disponível por região. A Ásia possui 60% da população do planeta, mas apenas 36% da água potável disponível. A Europa possui 13% da população mundial e 8% da água; na África, os dados são, respectivamente, 13% e 11%; na Oceania, 1% da população, e 0,5% da água. O continente americano é o mais privilegiado. Enquanto a América do Norte tem 8% da população da Terra, possui quase o dobro da água, 15%. E a América do Sul, com também 8% da população, dispõe das maiores reservas, com a região amazônica e  o Aqüífero Guarani, chegando a 26% de água potável disponível, mais de três vezes a sua população. “A região que engloba a Europa, a Ásia e a África possui metade da água do planeta, mas a sua população chega a 6/7, ou 86%. Está aí a maior pressão. Na Ásia, os aqüíferos estão mortos ou morrendo, devido ao mau uso. A vulnerabilidade hídrica deste três continentes deve servir de alerta para o planeta inteiro.”

Um dos problemas que levam à escassez de água é o crescimento populacional, que deveria ser seguido pelo consumo do precioso líqüido. Não é o que acontece, porém. O consumo de água no último século cresceu seis vezes enquanto que a população teve um aumento de 2,5 vezes. Atualmente, 40% da população mundial vive sob alguma forma de estresse hídrico, o que representa 2,5 bilhões de pessoas, número que, segundo as projeções, deve alcançar 5,5 bilhões em 2025. Um bilhão de pessoas (ou 18% da população mundial) não têm acesso à água com qualidade potável. “A água como um bem econômico, ou a água como um bem social é uma discussão tocada por esse ponto. E estas pessoas estão muito mais perto da gente do que imaginamos”, acrescentou. Outro dado alarmante diz respeito ao acesso a saneamento básico adequado, onde 40% da população, ou 2,5 bilhões de pessoas, não o possuem.

A produção de alimentos é quem absorve o maior uso da água no planeta. A demanda por esse uso vem crescendo extraordinariamente, muito mais do que se podia imaginar. A água para a irrigação cresceu 60% desde o início da década de 1960. Em torno de 70% do uso industrial de água se destina à produção de grãos para a alimentação humana e animal. A eficiência das técnicas agrícolas ainda é baixa, em torno de 40%. Técnicas como o gotejamento, que economizam uma parcela considerável de água ainda são pouco ou subutilizadas. “Uma parte significativa de lençóis subterrâneos da África e da Ásia estão sendo explorados sem sustentabilidade. Ou seja, eles não podem continuar retirando o que está sendo retirado, pois morrerá em breve. Em algum momento, aquele manancial não mais abastecerá. Portanto, a irrigação para a produção de alimentos nestes locais pode levar a uma crise de abastecimento”, alerta Canedo.

A respeito do consumo de água pelas crianças, uma que nasce e cresce no mundo desenvolvido tem o direito de consumir 40 vezes mais água que outra que passa o momento inicial da vida no chamado mundo em desenvolvimento, por conta da falta de acesso à água. Morrem seis mil crianças por dia devido à falta de água tratada. Internam-se 250 milhões de pessoas por ano em decorrência da falta de acesso à água tratada, ocupando metade dos leitos hospitalares disponíveis. “Podemos aumentar os hospitais, ou, o que é mais barato, levar saneamento a estas pessoas.” Segundo a ONU, deveriam ser gastos US$ 180 bilhões por ano, mas o investimento em água não chega a metade desse valor, ficando em US$ 70 bilhões. “A cada ano, o buraco vai ficando maior”, pontua o engenheiro da Coppe.

Brasil

Falando mais especificamente do Brasil, possuímos um quarto da água do mundo e uma pequena população, o que nos dá uma situação de relativo conforto. Somos rico em água, temos uma posição de absoluto destaque, disparado na frente dos demais. O segundo colocado, a Antártida, possui muita água gelada, nós possuímos muita água correndo na superfície – muitos países possuem apenas água subterrânea, onde é preciso eletricidade para resgatá-la. “E, além de termos um manancial subterrâneo extraordinariamente grande, temos a água mais barata do mundo. Temos ainda grandes insolações tropicais em todo o território, durante todo o ano; clima sempre bom para plantar; temperatura média de 20o C, ótima também; oito grandes biomas, com a mais ricas flora e fauna do planeta. Este clima úmido garante que nossos rios sejam perenes, com exceção dos rios no sertão nordestino. E, além de poder abastecerem as cidades, eles servem ao transporte pluvial, ainda que subaproveitados, além de poder gerar uma matriz de eletricidade absolutamente limpa, a matriz hidrelétrica. Cerca de 80% de nossa energia elétrica vem da água. Além disso, temos reservas subterrâneas que ainda pouco usamos.”

Apesar de toda essa riqueza, por incrível que pareça, o Brasil vive problemas hídricos. As principais razões são:

1) a distribuição desigual pelo território nacional. A maioria de nossa água está onde temos a minoria de população, na região norte do país. E temos regiões com o oposto, carência de água, como a cidade de São Paulo, que tem que buscar água potável cada vez mais longe;

2) a maioria de nossas cidades tem problemas com a qualidade de água urbana. Quando não com a qualidade, é com a quantidade, com os excessos – estamos acabando de sair de um período de chuvas intensas, com enchentes espalhadas pelo país – e a falta de água pótavel.

Isso deriva da falta de planejamento urbano para a ocupação do solo, completa falta de infra-estrutura urbana para a coleta e tratamento do lixo, precária fiscalização dos efluentes industriais, ocupação descontroladas de áreas ribeirinhas. Cada vez é necessário buscar água mais longe, e perde a população, que fica sem saúde, e também o meio ambiente, que fica sem todo seu potencial. No Brasil, a maior causa de mortes vem da diarréia, derivada especialmente da falta de saneamento. O investimento mais barato, portanto, não seria em leitos hospitalares, mas em saneamento. “Não resta dúvida que falta prioridade nacional à questão do saneamento. A prova é que, para fazer a próxima ligação de luz, dar continuidade a extensão, gasta-se R$ 10 mil. Para continuar extendendo a ligação de esgoto até a próxima residência que ainda não possui, gasta-se R$ 1 mil. Ou seja, o Brasil dá dez vez mais prioridade à eletrificação do que à coleta de esgoto. Então não tenho dúvidas que a primeira coisa que falta é prioridade, e por isso que esse tipo de reunião é importante, porque traz o debate à sociedade. ”, afirma Canedo.

O que pode ou poderia ser feito? Para Canedo, “se nós investirmos para melhorar a água brasileira, podemos colocar o Brasil em uma posição de destaque mundial no setor de agroenergia e produção de alimentos. O futuro na Europa, Ásia e África é ruim, como vimos. Essa pressão, cada vez maior, aumenta a vantagem comparativa que o Brasil tem com os outros países. Não temos grandes pressões naturais na água, temos pressões que nós mesmos criamos. E podemos combater isso fazendo o dever de casa. Temos muita terra fértil, muita água, muito sol, muitas hidrovias, muitos quilômetros de litoral. Somos líder mundial na produção de açúcar, álcool, soja, fumo, laranja, café, frango e carne. A agropecuária responde por uma parcela expressiva do PIB”.

Poucos países podem ter uma perspectiva futura de ter sustentabilidade hídrica e ambiental como o Brasil. Mas, para isso, é preciso continuar a ter a disponibilidade hídrica e saber como bem geri-la, e só vamos conseguir se colocarmos o assunto na pauta principal das discussões. É preciso também uma fatia maior de investimentos, além da gestão dos recursos hídricos, que tem andado, mais ainda de maneira muita lenta. “É necessário este período de organização da sociedade, e estamos caminhando”, disse Canedo, que concluiu com um exemplo positivo. A região da Grande Vitória, no Espírito Santo, tem feito investimentos vultosos em abastecimento e saneamento básico e em cinco anos deve chegar aos 100% de abastecimento de água e aos 90% da rede de esgoto tratada com saneamento básico, uma universalizaçao real. “A água é escassa, mas o bem mais escasso é o dinheiro”, finalizou o engenheiro.

Futuro das Águas: As águas e o futuro das cidades | Mesa 2

A segunda mesa do Seminário Futuro das Águas abordou a questão do ponto de vista das cidades, e qual o papel que elas podem desempenhar como pólo de políticas preventivas contra os efeitos negativos que as alterações ao meio ambiente provocam e o seu conseqüente impacto no regime das águas.

O economista e ambientalista Sergio Besserman, presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável e Governança Metropolitana da Prefeitura do Rio de Janeiro (Cadegom), abriu a mesa falando sobre a elevação das marés. O Rio de Janeiro é uma cidade água, cercado pela baía de Guanabara, baía de Sepetiba, o sistema lagunar, o litoral oceânico, os rios que descem das montanhas e alimentam o sistema lagunar e as baías. “Enfim, nós somos água”, afirmou Besserman. “E o futuro das cidades no mundo, a maior parte delas, cidades costeiras, está sendo afetada por um processo global, que é a mudança climática.

Um dos grandes cientistas da mudança climática, James Hansen (Leia entrevista com o físico), afirmou que é a subida do nível dos mares o que deve definir qual seria o limite do perigo, do que é perigoso para a humanidade.” O que se discute é quanto as marés vão subir, em decorrência da elevação da temperatura, se 2oC, 3oC, ou bem mais. Isso afetaria a infra-estrutura, traria mais custos sociais, especialmente se levarmos em conta a vulnerabilidade dos mais pobres, que devem arcar com as conseqüências principais.

Segundo Besserman, é o momento de despertar o interesse científico das pessoas, para que acompanhem e dêem atenção ao noticiário sobre essa questão, que mexe profundamente com as nossas vidas. Sobretudo porque ainda há incertezas grandes sobre a subida das marés. “No famoso relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), de 2007, a previsão é de que, no século XXI, haveria uma subida do mar, entre 20 e 60 centímetros, com 40 centímetros como o mais provável. Parece pouco, por exemplo, Copacabana está a um metro e meio do nível do mar, mas não é. Pois 40 cm seria a média, com uma ressaca, tempestade, lua cheia, seria bem mais que isso. A questão é que o problema é um pouco maior”, afirma Besserman. E explica que o IPCC não faz ciência, mas a varredura da ciência, compila as pesquisas desenvolvidas, compara e produz seu relatório anual, considerado um pouco conservador.

Para englobar toda a ciência relevante, o relatório de 2007 considera o que foi produzido até 2004, pois seria impossível ler tudo o que de relevante foi produzido em 2006. Outra questão é a posição conservadora do relatório. Onde está estabelecido que a previsão é de subida de 20 a 60 cm das marés nos próximos 100 anos, há um asterisco, que diz, grosso modo: “Se a degradação do gelo dos mantos da Groenlândia e do Pólo Sul for não-linear, a previsão sobe para 1,5 metros”. “Para vocês terem idéia”, acrescenta o economista, “o cientista norte-americano saiu batendo a porta em protesto contra os chineses, devido à posição muito conservadora, que não permitiu que colocassem essa informação no texto principal”. E o que significa esta degradação não-linear do nível do mar? O cálculo realizado para se chegar a 20-60 cm de elevação das marés considera, como fatores de expansão do nível do mar, a expansão térmica do oceano – porque a água quente tem mais volume que a á agua em temperatura ambiente – e o derretimento do gelo. “Só que o gelo, na Groenlândia e especialmente no Pólo Sul, é complexo. Alimenta rios, maiores que o Rio Paraíba do Sul, alimenta lagos, maiores que a Baía de Guanabara, eles se conectam, há frestas. É um sistema dinâmico. Como se comporta esse gelo? É o que os cientistas estão interessadíssimos em descobrir. Poderíamos ter notícias boas. Basicamente, o mecanismo é o seguinte: os mantos de gelo vão entrando lentamente no oceano, mas, ao mesmo tempo, está nevando sempre no miolo do continente antártico. Poderíamos descobrir que está nevando mais, devido a maior evaporação, com o aquecimento global, poderia estar juntando mais gelo. Só que não é isso, infelizmente, que a ciência está descobrindo. Ela está preocupada basicamente com duas coisas:

1. A água, com o aquecimento, derrete mais e se inflitra por esse sistema de mantos. Ao lubrificar o contato do mantos, acelera a velocidade com que eles se descolam e entram no oceano;

2. Esses mantos de gelo encontram as plataformas que, embora não interfiram no nível do mar, pois já estão na água, fazem resistência ao avanço do gelo”, explica Besserman. Essa previsão de elevação de 1,5 metros nos próximos 100 anos antecipa problemas. A população que vive no entorno da Baía de Guanabara, geralmente desassistida, pode enfrentar inundações, alagamentos em 10 anos. Na Baía de Sepetiba, que está sendo ocupada, o risco é o mesmo. “Acompanhem o noticiário, pois isso estará cada vez mais presente”, aconselha o economista. “A chave da vitória ou da derrota está na produção e disseminação do conhecimento a respeito dessas questões”, finalizou.

O que é fácil de verificar com uma pesquisa básica. Notícia da Folha de. S Paulo de 26 de fevereiro último informa que “o Ártico e a Antártida estão esquentando mais rápido do que se imaginava e seus mantos de gelo, especialmente o da Groenlândia, estão derretendo sob influência do aquecimento global. As conclusões são do maior esforço de pesquisa já feito sobre as regiões polares, que envolveu mais de 10 mil cientistas de 60 países, incluindo o Brasil”. Segundo David Carlson, coordenador científico do Ano Polar Internacional, em entrevista ao jornal, “os especialistas discordariam de um cenário de derretimento repentino, instantâneo ou catastrófico” e o resultado não pode ser considerado definitivo, mas estas pesquisas realizadas em 2008, no Ano Polar, “indicam um balanço de massa negativo, ou seja, mais gelo é perdido do que o que se acumula por precipitação de neve”. E a primeira região a sentir o efeito das mudanças na Antártida será a América do Sul.

Já a BBC Brasil noticiou no último domingo, 5 de abril, que “uma ponte de gelo que liga um bloco do tamanho da Jamaica a duas ilhas da Antártida rompeu-se. Cientistas afirmam que o rompimento pode indicar que o bloco Wilkins, como é conhecido o território, flutuará livremente, o que seria um sinal das mudanças provocadas pelo aquecimento global. O bloco Wilkins, que fica no oeste da Península Antártica, está diminuindo de tamanho desde a década de 1990”. Para o pesquisador David Vaughan, do instituto British Antarctic Survey, “o fato de que ele está diminuindo e agora perdeu conexão com uma das ilhas é uma indicação forte de que o aquecimento da Antártica está tendo efeito em outro bloco de gelo”, embora, como ressalta a matéria da BBC Brasil, o rompimento não deva ter impacto direto no nível dos mares, pois o gelo segue flutuando e não derrete, mas estas mudanças no clima da Antártica preocupam os cientistas.

A seguir, o geógrafo Dieter Muehe, da UFRJ, continuou falando sobre o nível das marés, sob o ponto de vista das informações geomorfológicas, exibindo mapas e dados estatísticos. Há 700 anos, afirmou Muehe, a maré tinha nível bem mais elevado, de 2 metros, chegando a picos de 4 metros, que depois veio decrescendo. A variação hoje conta com esse fator a mais, que é o aquecimento global, embora seja complicado e difícil afirmar peremptoriamente como ele age. Mas, segundo Muehe, “as visões catastróficas se baseiam em períodos muito curtos. Se ficarmos, nos próximos 100 anos, com elevação de 30 centímetros, o que ficaria dentro do apontado pelo IPCC, estaríamos seguinda a média de outros séculos”.

É preciso não esquecer também as diferenças entre os dois pólos. Enquanto o Ártico é o mar cercado de terra –onde a passagem a noroeste já foi liberada, devido ao derretimento do gelo, e a passagem a nordeste está a caminho –, a Antártica é terra cercada de mar. Logo, como os processos diferem consideravelmente de um pólo para outro, o nível das marés náo sobe de forma equânime em todo o planeta. A vulnerabilidade premente localiza-se nas regiões costeiras, sobretudo nas grandes cidades litorâneas, onde o risco de erosão, intensificação de tempestades, ciclones e inundações é maior. Nas grandes cidades situadas na costa o mar já sobe em condiçoes adversas, com simples marés cheias.

O que é preciso para reverter essa situação? “Hoje começa a se ter consciência, este seminário é exemplo disso, temos que multiplicá-lo as dezenas. É preciso também uma articulação federal, estadual, municipal para monitoramento das marés e do clima para que estas medições englobem mais tempo. As coisas têm que convergir, falta um serviço específico de monitoramento integrado. A mudança de mentalidade também é fundamental, sobretudo na nova geração. O colégio secundário já deveria incluir disciplinas que tratam do meio ambiente, das mudanças climáticas, do aquecimento global. É preciso desenvolver e popularizar o armazenamento de água das chuvas, além de ampliar o reflorestamento”, afirma Muehe.

Fechando a mesa, Andréa Margit, gerente de meio ambiente da Fundação Roberto Marinho (FRM), falou sobre o projeto Caminho das Águas, uma parceria daAgência Nacional de Águas (ANA) e da fundação. Segundo o site da FRM, “O projeto consiste na concepção e implementação de materiais educativos que serão distruibuídos em escolas da rede pública e em instituições e organizações não governamentais que trabalhem com a temática ambiental nas regiões das bacias hidrográficas do rio Doce, dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, do Paraíba do Sul e do São Francisco. Essas bacias destacam-se por abastecer ou passar por grandes cidades brasileiras e por estarem intimamente ligadas ao desenvolvimento econômico desses estados, sofrendo diretamente com poluição, assoreamento, erosão e desmatamento de matas ciliares.

O Caminho das Águas prevê a criação de 1.600 kits com material educativo, que serão distribuídos para 800 escolas públicas.Voltado para alunos de 5ª à 8ª série, ele tem como objetivos:

1. Disseminar conteúdos teóricos e práticos sobre o direito de todos à águas e a necessidade de usá-la de forma racional e eficiente, combatendo o desperdício e a poluição e estimulando a conservação dos recursos hidrícos; 

2. Capacitar representantes de escolas e instituições para utilizar o kit como ferramenta educativa na reflexão de temáticas ambientais relacionadas à água e estimular a comunidade a participar do processo de gestão das águas no país.

Cada kit educativo contém DVDs com programas criados pelo Canal Futura especialmente para o projeto. Além disso, também foram incluídos outros programas do Futura que também tratam do tema água. Complementam o material dois cadernos de orientação para os professores, um mapa das regiões hidrográficas brasileiras, um CD com músicas sobre o tema, um CD Rom com todo o conteúdo didático e mais um jogo de RPG criado para tratar do assunto de maneira divertida e educativa”.

Conforme Andréa, o objetivo principal do projeto é “organizar as informações a respeito do assunto, articular as instituições, porvocar reflexões, mobilizar para reverter a deterioração ambiental. Ou seja, disseminar conteúdo sobre o estado e a gestão das águas, sobretudo em áreas de ocupação desordenada e enorme descarga de poluentes”.

Futuro das Águas: Imaginário das águas | Mesa 3

A terceira e última mesa do Seminário Futuro das Águas voltou-se para a questão do imaginário, ao tratar da água como objeto de reflexão e elemento de linguagem em diferentes manifestações do saber, como na religião, nas artes e na ciência.

Heloisa Buarque de Hollanda, diretora d’ O Instituto, abriu a mesa comentando a intenção de unir cultura e ciência. “Até muito pouco tempo, a cultura não entrava como uma variável de análise importante. Hoje a gente já tem várias outras perspectivas de cultura como recurso econômico, como recurso político, enfim, a cultura já tem outras entradas e a gente está testando aqui, agora, como metodologia científica.” Segundo ela, assim como a água integra um ecossistema que afeta tudo, “a cultura está sendo cada vez mais vista também como um ecossistema cultural, começa com uma discussão entre diversidade cultural, que é exatamente a biodiversidade. Essa visão sistêmica é que trouxe a idéia dessa mesa”.

A Carioca - Pedro Américo, 1882

Paulo Herkenhoff, diretor do Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, apresentou quadros onde a questão da água aparece de diferentes maneiras, com significados os mais variados. Em uma tela de John Jonas, de 1508, por exemplo, há uma cena que une campo e cidade, onde temos um homem e uma mulher com seu filho ao lado, no alto um raio, e não se vê bem, mas há um pequeno córrego que corre. “Trata‑se de uma circulação da água, essa cena primal é extremamente vinculada ao tempo e simultaneamente encerra alguns símbolos. O primeiro deles, evidentemente, é idéia de nascimento com esta criança amamentada e essa luz que cai, existe um pé no Lucrécio, de natura que diz que nascer é dar as praias da luz, ao mesmo tempo a chuva que se promete e uma mãe provedora, falando então da continuidade da natureza e, finalmente, é preciso dizer que essa é a primeira paisagem produzida pela arte ocidental como moderna, no sentido de não estar vinculada à tradição anterior do gótico”, acrescentou Herkenhoff.

E para onde vai esta água que corre? “O que não se avista é o destino do rio, que é o mar. George Bataille, numa resposta a Satre, sobre a idéia do não saber, dizia que a vida está destinada a se perder na morte, como um rio se perde no mar. O conhecido e o desconhecido. Ou seja, este não-saber é aquilo que nos desestabiliza, e a água é sempre um elemento de desestabilização, nós sabemos.”

A seguir, Herkenhoff tratou de cinco obras, quatro do século XIX e uma do século XX. A primeira é A carioca, de Pedro Américo (ao lado), uma tentativa de definir um tipo da cidade do Rio de Janeiro. “No lado simbólico existe estes planejamentos brancos e vermelhos com seus símbolos históricos, o branco com símbolo de pureza. E a simbólica da água é feminina, isso que se diz no século XIX”, acrescenta. A carioca remete ao estado de um jardim com água corrente, o frescor da carioca, no sentido de estabelecer uma primeira representação do que é ser uma mulher no Rio de Janeiro, um simbolismo típico do século XIX. A próxima imagem é Moema, heroína do poema Caramuru, do Frei de Santa Rita Durão, precursor do indianismo do Brasil e aqui pintada por Vítor Meirelles (abaixo). Moema, ao ver que seu amado saía de navio e ia embora, se lança ao mar, nada e se agarra ao leme, mas depois nada até à exaustão e simplesmente se entrega à morte. Herkenhoff citou Bachelard: “Um dos aspectos do interminável devaneio da morte, é a morte sobre a água”. “Em seguida, Bachelard pergunta: ‘Terá sido a morte o primeiro navegador?’. Para o indigenismo brasileiro terá sido, sim, o primeiro navegador”, completou Herkenhoff, que considera o pensador francês uma referência importante. “Água e sonhos é um livro extraordinário, é parte da psicanálise dos quatro elementos, ele estuda profundamente a simbologia da água com enorme poder de articulação, de referência, e falando talvez de um exercício e de uma vontade material e propriamente de uma imaginação imaterial através da água.”

Moema - Vitor Meirelles, 1875

O terceiro exemplo é O derrubador brasileiro, de Almeida Júnior (ao lado), que não é um bandeirante, que não foi a única figura máscula, heróica da história brasileira, como se coloca hoje num certo discurso hegemônico. Para Herkenhoff, a água é muito parca ao lado desse brasileiro. A seguir, O último tamoio, de Rodolfo Amoedo (abaixo). “Esta pintura também aponta para diversas questões e problemas do indigenismo, mas também se referindo à maneira que a Europa busca entender essa alteridade a partir do Iluminismo.

Ou seja, existe aí algo do bom selvagem de Jean Jacques Rousseau, entre o encontro no que poderia ser entendido como a civilização européia, a fé redentora do catolicismo com esse selvagem.” Os tamoios foram massacrados em 1575, em Cabo Frio. É uma pintura feita de 1883, antes da Abolição e da República, e que remete a um símbolo de resistência pela liberdade. E o que seria a água nesse contexto? “É a origem da destruição, ou seja, é desse mar que chega a destruição das sociedades indígenas. Se articulada a Moema, ali está uma partida dolorosa, aqui está uma chegada sangrenta, este é o resultado final.”

Por fim, Tarsila do Amaral. Acrescenta Herkenhoff: “Em 1923, ela está em Paris, e escreve para a mãe dizendo que Paris agora quer saber de gravuras japonesas, de arte africana e que ela vai trabalhar com temas brasileiros. Ela faz um quadro de tema brasileiro, que éA negra (abaixo), mas uma negra não cristianizada – porque toda pintura que ela fará depois dessa, será de negros cristianizados, adoração, anjos. Ou seja, Tarsila não faz o exercício de estudar a obra de outras sociedades, como faziam Picasso, Chico Monteiro, ela absorve referências de outros artistas”. A cabeça do Abaporu, por exemplo, é saída da escultura Princesa X, de Brancusi, uma obra de Papua. “Em Tarsila não existe água na origem, ou seja, não há um fluxo que defina essa origem. Vejo aí esse ponto complicado na obra dela, talvez justamente pela ausência de água de fluxo”, concluiu.

Para Herkenhoff, a pintura desses cinco artistas confirma certa cartografia identitária que se tentava armar no Brasil. “Havia uma água que de certa forma era apresentada como uma fonte de vida, uma fonte de origem, mas ao mesmo tempo buscava uma dimensão da identidade que se tornaria mapa estável e calmo, como a água, o mito. Mas ao mesmo tempo se oporia a turbulência do real.”

A seguir, Henrique Lins de Barros, doutor em física pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), onde é professor titular, e curador da exposição H2O – O Futuro das Águas, começou falando das origens. A água aparece na cultura ocidental como um dos elementos fundamentais na natureza: água, fogo, terra e ar. “Esta visão é primária, inicial, e vai definir toda uma percepção da cosmologia, toda uma visão de mundo, que vai ser gradualmente perdida a partir do século XVIII, quando se consegue fazer a decomposição da água.” Barros se refere aos experimentos feitos por Priestley, Lavoisier, e Duporter, quando se consegue separar da água dois elementos: o hidrogênio e oxigênio, sendo que o hidrogênio é um elemento facilmente combustível. “Então existe um problema na teoria dos quatro elementos fundamentais, que é o fato de que você pode tirar da água o hidrogênio, o fogo, e a água então deixa de aparecer como elemento fundamental.” A partir daí, gradualmente, caracterizamos a água como uma molécula composta por três átomos: dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, que formam um triângulo aberto em que dois vértices são de hidrogênio e um de oxigênio. São moléculas polares – mais carga negativa de um lado do que de outro – e isso vão dar várias características de propriedades. “Nunca vimos uma molécula d’água, elas são muito pequenininhas. Um átomo de hidrogênio tem mais ou menos como 0,00000000001 de comprimento, ou seja, um tamanho muito inferior a nossa capacidade de ver. Nunca vimos uma molécula d’água e provavelmente nunca veremos dentro do corpo de conhecimento que nós temos hoje. Mas podemos idealizá‑la.”

Além disso, a água talvez seja a única substância que tenha uma característica muito peculiar: quando você esfria a água, a partir de 4oC, ao invés de continuar encolhendo, como quase todas as substâncias fazem, ela se dilata e isso faz com que o gelo ocupe mais volume do que a água que o compõe. “O fato do gelo boiar é extremamente importante. Quando a temperatura baixa e os lagos, os mares gelam, o gelo bóia, ou seja, a camada superficial da água fica congelada e forma uma espécie de cobertor gelado, mas é um cobertor, impedindo que a radiação penetre para o interior da água, do lago ou do mar. Ou seja, mantendo a água no fundo líquida, permitindo com isso que a vida se preserve lá dentro. Caso contrário, o congelamento começaria de baixo para cima, e aí estaria tudo morto. Então, o fato de a água ter esta propriedade muito peculiar é importantíssima para preservação da vida”, acrescentou Barros.

O físico falou ainda da era do medo que estamos atravessando. “Um momento que eu chamaria não de medo líquido, do Bauman, mas de um momento em que a sociedade está vivendo apavorada, com medo; um destes é o medo que a água potável no mundo venha a piorar. A água do mundo não vai acabar.” Então Barros falou sobre o surgimento da terra e da água, que provavelmente teria aparecido cerca de 4,5, 4,7 bilhões de anos atrás, logo depois da formação do planeta terra. Este formou-se através de poeira cósmica, ao mesmo tempo em que todo o sistema solar surge mais ou menos na mesma hora por condensação. Tudo indica que seria uma terra seca, quente, com grande atividade vulcânica. “Uma das teorias que eu acho muito agradáveis é a idéia de que a terra surgiu com a colisão de um cometa. Cometas que são objetos celestes compostos fundamentalmente de gelo, e, neste momento primordial da terra, pode ter havido uma colisão e essa água ficou na terra, através de vapor que a envolveu. Estima‑se que choveu torrencialmente cerca de 500 milhões de anos. Após este período longo de chuvas teriam se formado os oceanos, e aí num momento em que ninguém sabe – vários momentos, provavelmente – começaram a surgir organismos, entidades capazes de metabolizar a reprodução. A vida teria surgido neste momento, após as chuvas, quando a radiação solar conseguiu chegar a superfície da terra com mais intensidade e a atividade vulcânica diminuiu um pouco. Esta origem nutriu a terra de água em condições muito peculiares no planeta.”
Se a terra fosse um pouco mais próxima do sol, como Vênus, a radiação solar seria muito intensa, a temperatura mais alta, não haveria ocorrência de água líquida, o gás e o vapor d’água tenderiam a escapar. Caso a terra estivesse um pouco mais distante do sol, como Marte, a temperatura da superfície seria menor, a água estaria congelada ou em subterrâneos. “Se não tivesse a água, o planeta teria uma variação muito brusca de temperatura, um comportamento completamente inadequado para o que a gente entende como vida.”

Barros finalizou refletindo sobre a responsabilidade, hoje colocada sobre o indivíduo, quando deveria mirar o modelo econômico insustentável que continuamos a seguir. “O problema mais grave hoje, relacionado à poluição e perda de água potável, está no modelo econômico desenvolvimentista em que todas as soluções propostas visam o aumento da produção e do lucro. Ou seja, nós temos hoje o mundo em que, estima‑se, 90% da riqueza está na mão de 1% da população. Temos que ter consciência de que, em breve, deveremos abrir mão de certos confortos. Precisamos de mudanças de hábitos radicais para que a gente possa conviver no mundo com mais ou menos seis a sete bilhões de habitantes com consumo adequado para todo mundo. Estou preocupado com o tempo”, concluiu.

O antropólogo Luiz Fernando Duarte, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ, trouxe a visão desta ciência, que consiste em tentar compreender cada cultura em si como uma maneira singular, ao mesmo tempo em que busca encontrar alguma coisa de comum, compartilhada entre estas singularidades que são as culturas. “O modelo que temos de natureza é um modelo construído por nossa cultura ocidental moderna. Não temos muita certeza se as outras culturas concebem o mundo que os cerca como uma natureza, tal como nós entendemos, e dentro dessa natureza está a água.”

A variedade de manifestações dessa qualidade água é enorme. Para tentar encontrar um meio caminho entre essa pluralidade de sentidos de todas as coisas que compõem a natureza e de uma necessidade de se chegar a uma comparação comum, Duarte chegou a três definições. As coisas água: água doce, água salgada, água salobra, água pura, água benta, água mineral, chuva, neve, névoa, granizo, gelo, vapor, gêiser, fluxo, poça, onda, inundação, tsunami, borrifos, gotas. Aquilo que está na água: peixes, crustáceos, cetáceos, sereias, algas, conchas, corais, aquelas coisas que parecem água e que vem de fora, alimento, as bebidas excitantes, os meios de banho, que nem sempre são águas, mas nas diferentes culturas, por exemplo, na cultura grega era azeite e os nossos líquidos endógenos que nem sempre são água, como a lágrima, sangue, urina, secreções, contém proximidade com a água, enfim, as coisas água são infinitas. E os lugares água: mar, rio, lagoa, cachoeira, igarapé, planta, campo de neve, olho d’água, estuário, pororoca, praia, ribeira, orla, porto, dique, pia, atracadouro, plataforma, ilha. Tudo isso tem a ver com água, assim como piscina, aquário, tanque, fonte, bebedouro, tina, jarro, copo, jardim e planta.

“Sem esgotar estas possibilidades infinitas de lugares água, este arrolamento é apenas para mostrar que isso pode ser reproduzido através das culturas um significado completamente diferente. Lembrei-me de um exemplo antropológico comparável, descrevendo a cultura Hiatmu, da Nova Guiné. Um nativo que vivia no interior da ilha é levado à beira-mar. Ele chega e há uma expectativa do antropólogo de ver o que será o impacto tão marcante do mar, do oceano. E ele fica sentado, inativo, na beira do mar, refletindo. Depois é perguntado a ele sobre o que refletia tanto e ele diz: ‘Finalmente, vi a manifestação concreta do mito de origem do meu clã, que é ondulação, as ondas’. O que chamou atenção dele nas águas do mar é uma idéia mitológica contida nas representações dos Hiatmu, e do clã especificamente dele, de que a idéia de que tudo é uma ondulação, uma espécie de teoria ondulatória básica do universo que era patrimônio da sua seção daquela sociedade.”

Há também as ações água: beber, lavar, cozinhar, nadar, navegar, pescar. Marcel Moss fala das culturas nacionais onde as pessoas se lavam com a pia fechada e onde se lavam com a pia aberta, ou seja, com a água corrente ou com a água parada. “É por isso que, em muitas culturas, nas pias você tem a tampinha e um fiozinho de água. A cultura brasileira é uma cultura de água corrente, em geral. Em outras culturas nacionais européias é básico que você feche e se lave na água parada.”

Para finalizar, essências águas. “Vamos encontrar dois caminhos imaginários principais: a dimensão judaico-cristã da cosmologia ocidental: o Gênesis, o dilúvio, Jonas e a baleia, a fonte de Suzana, a travessia do Mar Vermelho, o batismo no Rio Jordão, o Mar Morto e a pesca de almas, a transformação da água em vinho. Mas, sobretudo, o que vai se reter da tradição judaica para a tradição cristã é ideia do batismo, água redentora, daquela que elimina o pecado original, seja por imersão, seja por aspersão – há uma certa controvérsia interessante dentro das igrejas cristãs a este respeito, retomadas hoje nas igrejas pentecostais. E, é claro, uma série de transposições laicas dessa ideia da água como imediação da pureza. Água benta, água oxigenada, água ionizada, água sanitária, enfim, podemos ter uma série de reverberações das águas que limpam, das águas que purificam. A segunda é a direção greco‑romana, em três vias, na verdade. A primeira delas era da água como uso de sociabilidade, as termas ou banhos públicos romanos, e nas residências o implúvio, o pátio central das residências greco‑romanas onde se recebia a água das chuvas que era condensada na cisterna e representava realmente o núcleo da idéia de residência. O segundo são os usos sagrados, as chamadas águas lustrais, rituais de purificação, que também existiam na tradição greco‑romana; o terceiro, usos medicinais e terapêuticos, a água fazia parte de um sistema chamado sistema médico filosófico, pólo moral em que se opunha o quente, o frio, o seco e o úmido, e eram as bases da representação moral do mundo e condições dos temperamentos, humores etc. Aí entram as áreas terminais e minerais, também com transposições modernas, as termas ou banhos públicos, que nos trazem para uma série de aspectos mais ou menos isolados da nossa experiência contemporânea, que são os hamans da tradição turca, os spas da tradição germânica, as saunas, o ofurô que a gente busca do Japão.”

E, finalmente, a praia moderna, bem descrita pelo historiador do uso da natureza, Alain Corbin – autor de O território do vazio. A praia e o imaginário ocidental (Companhia das Letras, 1989) que mostrou como o prazer, o lazer da praia foi construído na passagem do século XVIII para o XIX. Até então, as praias eram lugares absolutamente horripilantes, de naufrágio, de proximidade do abismo, de um lugar inquietante. A partir dali, passam a ser um lugar sanitário e terapêutico, onde a força da onda energizaria o corpo humano. Enfrentar-se com a onda passa a ser um dos primeiros sinais desse prazer e lazer que a praia proporciona, chegando às condições em que hoje, todos nós, mais ou menos, até uma certa idade, nos nutrimos desseprazer.

Duarte concluiu comentando a tensão básica que caracteriza a cultura central moderna: a oposição entre o princípio da água como limpeza, frescor, vitalidade, fertilidade, envolvimento, vida, pureza, prazer, em contraposição à uma idéia de sufocação, naufrágio, afogamento, impureza, morte, um excesso ou carência de água, uma água má, contaminada. “Entre os exemplos, o tsunami recente no Oceano Índico, a inundação de Nova Orleans, pequenas águas cheias de larvas de aedes aegypti que estão nos cercando, a praia poluída de São Conrado, a chuva ácida, a ameaça da escassez.”

Fechando a mesa, o poeta Ferreira Gullar falou de sua experiência pessoal com a água, de uma água vindo do mar, em uma ilha tropical, e trouxe a lembrança dela em sua infância. “Nasci numa ilha, conseqüentemente cercada por água em todos os lados, São Luís do Maranhão. Por todos os lados, inclusive, de cima também, pois o que caía de água, o que chovia… De modo que meu convívio com a água é uma coisa permanente. A tal ponto que quando eu saí de São Luís, a escolha que eu fiz foi o Rio de Janeiro, não por ter água aqui, por ser uma cidade à beira-mar, mas porque era a capital cultural do país. E a água que eu estava precisando naquela época era cultura, mergulhar neste oceano de conhecimento. Depois, conheci São Paulo, que é uma cidade maravilhosa, linda, mas onde eu não moraria, porque não tem mar, não tem praia. Tem água, mas é encanada, o rio está poluído, quer dizer… Essa idéia de que a cidade está perto da água e, especialmente perto do mar, é uma coisa que me constitui.”

Gullar retornou à sua infância: “Então, não só eu vivia nessa ilha como brincava dentro d’água, tomava banho no Rio São Luís, no Rio Anil. E foi assim, tomando banho naquela águas, que um dia aprendi o seu lado mortal; um dos nossos companheiros afogou‑se. E aquilo era divertido, jogar‑se do cais dentro d’água, mas parei de tomar banho no Rio Anil. E depois, quando você sai de uma cidade tropical como São Luís e vem para o Rio de Janeiro, onde a água é fria… É surpreendente saber que no Norte, no Nordeste do Brasil a água do mar é morna, entra-se nela como se estivesse numa banheira térmica. Então, é uma coisa que, para mim, era fundamental esta experiência da água, esta temperatura da água, porque a água muito fria nos mata também, né?”

Em seguida, o poeta falou do conhecimento fenomenológico, que busca estar mais perto da experiência real da vida. “O que a ciência diz é, possivelmente, a mais alta expressão do conhecimento humano, mas existe um outro tipo de conhecimento que não é científico, que é fenomenológico, pois não adianta explicar que a água é uma porção de oxigênio e duas de hidrogênio, isso é o mesmo que dizer nada. Água é o trato, é a experiência da água, é beber a água, é sentir. Essa é a coisa do Merleau Ponty, é preciso estar mais perto da experiência real da vida. Podem me dizer que o cheiro do jasmim é conseqüência de uma série de moléculas que meu olfato percebe. Mas não diz o cheiro do jasmim, aliás, nada diz, nem o poema diz.”

Para Gullar, “a arte não revela a realidade, a arte inventa a realidade. Porque eu posso falar da experiência da água, mas não é a água. Quer dizer, eu invento uma água que é parte da minha experiência, e isso enriquece a vida. Porque como não sabemos, de fato, por que estamos aqui e nem porque existe este universo fabuloso, tudo é inventado. Então não custa nada inventar outras coisas. Como dizia Picasso, é a mentira que é mais verdadeira do que a verdade. E é disso que vivem os poetas e as pessoas, de algum modo, quer dizer, de inventar a beleza, inventar a maravilha, de inventar…”

E então o poeta falou de sua relação pragmática com a água. “Agora, na prática, eu, ao escovar os dentes, fecho a torneira. Estou tomando banho, vou me ensaboar, fecho a torneira. O problema da água, da ameaça que de algum modo paira sobre nós que faz eu fechar a água, que faz eu querer agredir o cara que em frente do meu edifício fica lavando a calçada com jorro d’água horas e horas. Na verdade falta criar a consciência necessária nas pessoas. É tanta água no Brasil, a cultura do desperdício da água tem que ser vencida. Eu me assusto, me preocupo, porque moro perto da praia de Copacabana, a uma esquina e meia, e daí a Antártica está derretendo e daqui pouco o mar vai invadir meu apartamento. Então, vivo assustado com este negócio. É uma coisa bastante preocupante e por isso esta iniciativa de trazer à discussão o problema da água é uma coisa realmente fundamental. Antigamente era só os verdes, os ecológicos que se incomodavam com isso, era um número muito reduzido de pessoas, mas eu vejo com otimismo esta preocupação com a preservação do planeta e o problema ecológico, o problema do aquecimento global, como isso hoje não é mais coisa de meia dúzia de despiroquetes, mas uma preocupação dos governantes e da população de quase todo o mundo. Quer dizer, isso é uma coisa realmente que me consola de uma maneira e, quem sabe, meu apartamento se salvará.”