O funk proibido

Depois de duas tentativas em vão, a Roda de Funk no Morro Santa Marta enfim pôde ser realizada na última segunda, 27 de julho. Os bailes funk seguem proibidos no Rio de Janeiro, e a roda, realizada durante o dia, pretendia colocar em discussão a proibição da manifestação cultural.

Segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), o funk movimenta R$ 10 milhões por mês na economia carioca e gera milhares de empregos. O valor inclui o arrecadado nas bilheterias dos bailes, os cachês das equipes, a venda de CDs e DVDs e os valores recebidos por MCs, DJs, equipes e até mesmo camelôs que trabalham em volta dos clubes. Mesmo assim, o preconceito contra o ritmo e a cultura que tem origem nas favelas ainda é grande. Nunca é demais lembrar que, no início do século XX, o mesmo se deu com o samba, proibido e considerado coisa de vadio para não mencionar outros adjetivos mais impróprios.

Por outro lado, tramita na Câmara dos Deputados do Estado um projeto de lei, de autoria do deputado Chico Alencar (PSOL/RJ), que define o funk como expressão da cultura popular brasileira, com o objetivo de diminuir a perseguição e o preconceito que ele enfrenta. Para Hermano Vianna, um dos primeiros a se debruçar sobre o fenômeno cultural, em sua dissertação de mestrado, ainda nos anos 1980, uma saída é a organização do pessoal dos bailes (donos de equipes, DJs, MCs, público e trabalhadores das festas em geral) para apresentar e negociar suas propostas.

O arquiteto e urbanista Manoel Ribeiro que, já no início da década de 90, levantou um debate pioneiro contra a discriminação do funk, envolvendo diferentes setores do estado, da academia e da sociedade civil no Rio de Janeiro, propõe, no artigo abaixo, uma agenda para a retomada dessa discussão. Segundo argumenta, é de interesse de todos que os bailes funk não permaneçam proibidos, pois é exatamente neste limbo que a marginalidade se ocupa dele. (Bruno Dorigatti)

Olha o funk aí de novo, gente!

Manoel Ribeiro

Já não tenho mais paciência para a ladainha de argumentos contra os bailes funk, que de tempos em tempos ocupa as páginas de nossos principais jornais.

De novo os mesmos argumentos: suas músicas fazem a apologia do crime; os bailes são promovidos por traficantes, se constituem em oportunidades para venda e consumo de drogas e produzem um barulho ensurdecedor que incomoda a vizinhança até altas horas.

Tudo bem que, esses pontos são, em parte, verdadeiros e contam com o endosso de expressivos segmentos da nossa sociedade.

Quanto ao cerne dos três primeiros argumentos – apologia do crime, promoção pelo “movimento” e oportunidade de consumo de drogas, é preciso entender que esses fatos são um sub-produto da repressão aos bailes, em clubes do asfalto.

O Mesquitão, o Boêmios do Irajá, o Pavunense, e outros clubes foram impedidos de realizar bailes por conta de uma lei discriminatória e arbitrária que estabelece condições especiais para realização dos bailes funk, que os inviabilizam e que não incidem sobre outras modalidades musicais.

Repetindo o movimento de defesa dos anos 1970, quando a então chamada “black music” foi banida do Canecão e se refugiou nas favelas e periferias, lá se foi o funk pelo mesmo caminho.

Nesse contexto o “dono do morro” passou a ser o contratante das equipes de som e dos MCs, para oferecer à juventude favelada o que eles mais gostam – bailes! Curiosamente, mais que a repressão, esse fato acabou com os famosos bailes de embate, ou “baile de corredor”, tão bem descritos por Zuenir Ventura no seu antológico Cidade partida (Companhia das Letras, 1994). Atualmente, os bailes funk são como festas caseiras onde só se encontram familiares e amigos próximos.

Claro que, nessas ocasiões, a bandidagem se aproveita da aglomeração para incrementar o comércio de drogas. Mas, se não fosse nos bailes, seria nas bocas tradicionais ou através dos aviões de classe média. O mal está na existência de uma demanda por drogas, gerada no seio da nossa sociedade.

Já os “proibidões”, que endeusam chefes bandidos, são peças de marketing elaborados pelos MCs, para vender seus shows. Em cada favela um nome é introduzido na mesma música de sempre e está montada a coisa. Esses garotos, criados em meio a tiroteios e mortes de conhecidos, levando “duras” da polícia e sem oportunidades de emprego, são verdadeiros empreendedores, ou “inventores de mercado”, para usarmos a expressão da antropóloga Jane Souto. Numa base baixada da web, eles aplicam uma letra de rimas pobres, gravam num CD e deixam espaço para elogiar os chefes bandidos das favelas onde eles têm acesso. Aqui o mal está na existência de territórios exclusivos dominados por essa ou aquela facção.

A demonização do funk estende-se até à ocupação policial do morro Santa Marta, onde a capitã da PM responsável pela ordem local proíbe especificamente os bailes funk, não importando o horário ou a quantidade de decibéis gerados pelas paredes de som.

Medidas como essa são tomadas de modo emocional (e às vezes demagógico) em meio a uma grande confusão conceitual. Todas elas lembram muito a velha piada do pai que manda retirar o sofá da sala para evitar as intimidades entre sua filha e o namorado.

Todos concordamos que o domínio dos morros pelo tráfico, o consumo de drogas e o barulho depois de certa hora são inaceitáveis. Mas daí a se dizer que proibindo os bailes funk estaremos combatendo esses males… é muita inocência ou demagogia.

Não se pode negar que o funk tem imensa capacidade de mobilização das populações jovens, é capaz de gerar um sem número de postos de trabalho e é uma das poucas alternativas de lazer barato para a juventude mais pobre e ainda serve de “ponte” entre os dois lados da “cidade partida” colocando em contato jovens favelados e de famílias de classe média.

Então, que tal separar o joio do trigo, combater os despropósitos e fomentar o que o funk tem de bom?

Num esforço de montar uma agenda de discussão sobre o funk e os problemas que lhe são atribuídos, deve-se considerar:

. a capacidade de mobilização, das populações jovens, e de geração de postos de trabalho que o funk detém;

. a sua contribuição para a diversidade cultural da nossa metrópole;

. as incompreensões que o “Movimento Funk” vem sendo alvo, desconhecendo-se que o fechamento de locais formais para a realização de bailes estreita os mercados, hoje quase que totalmente restrito aos “bailes comunitários”, com sérias repercussões sociais e culturais;

. que, dessa maneira o funk está sendo desperdiçado, como instrumento de políticas públicas, enquanto extraordinário espaço de sociabilidade e instrumento de comunicação com a juventude.


A partir dessas constatações, os pontos principais a serem abordados referem-se a:

. Revisão da legislação restritiva redirecionando-a para o controle dos horários e do volume das caixas de som e criação de estímulos para a realização de bailes nos clubes do asfalto;

. Proibição absoluta de músicas que façam apologia do crime , do uso de drogas e que vulgarizem práticas sexuais;

. Capacitação dos DJs de acordo com esses princípios e no sentido de manter a paz nos bailes;

. Implantação de uma segurança interna, igualmente capacitada, que deverá trabalhar em articulação com a Polícia Militar, responsável pela ordem nas ruas;

. Organização do serviço nos bares, e a segurança, de modo a não permitir a venda ou consumo de bebidas alcoólicas por menores de idade;

. Os bailes estarão abertos aos órgãos de fiscalização pública e meios de comunicação, no acompanhamento dos compromissos perante a nova Lei.

. As equipes de som disponibilizarão, para a fiscalização, as fitas gravadas de todo o desenrolar dos bailes, por um período de 30 dias.


Mesmo que esses pontos não esgotem a questão, fica claro que apenas o desarme de corações e mentes e o início de um diálogo construtivo é o único caminho plausível a ser seguido.