Agência Redes conclui ciclo focado no estímulo ao debate político entre os jovens de periferia

Iniciativa identificou as principais preocupações dos moradores de favelas e subúrbio

Para sobreviver à crise no Rio, só sendo carioca. A frase faz mais sentido para quem encara o último termo não apenas como gentílico, mas como sinônimo de um conjunto de características que inclui a capacidade de se adaptar a circunstâncias variadas. O autor do aforismo é Marcus Faustini, criador da Agência de Redes para Juventude. A organização está concluindo um ciclo que buscou conectar jovens de periferia à discussão sobre renovação política no país. “Os resultados foram surpreendentes”, avalia Faustini.

Segundo ele, a iniciativa é fruto de um desafio ao qual a Agência se propôs: mostrar que era possível discutir política com a juventude periférica, apesar do aumento da violência na cidade e da suposta apatia desse grupo em relação ao assunto. Com a missão definida, a organização deu início aos trabalhos com uma série de debates com jovens moradores de favelas e do subúrbio, batizada de Festival Todo Jovem é Rio.

Um ponto central da metodologia do projeto consistiu em fazer com que cada um dos debates reunisse 30 jovens na casa de um deles, que aceitava desempenhar o papel de anfitrião. Nos encontros que começavam questionando os participantes sobre os pontos positivos e negativos envolvidos na possibilidade de alguém como eles se tornar prefeito do Rio, os jovens eram estimulados a pensar e discutir sobre arte e política. Num período de 6 meses, uma equipe de 13 articuladores organizou nada menos do que 80 reuniões do tipo, impactando um total de 1600 pessoas em localidades como Acari, Batan, Rocinha e Vila Kennedy, algumas das quais dominadas dominadas pelo tráfico ou por milícias. Em todas, predominou um clima respeitoso.

Essa primeira fase do ciclo acabou no começo de 2018 e apontou as principais preocupações atuais do jovem carioca de periferia. Uma delas é a violência na forma das armas que, entre outras consequências, torna o espaço público das comunidades um ambiente perigoso. “A presença da cultura inibe esse movimento e recupera esse espaço em parte”, comenta Faustini. Outro objeto de atenção foi o péssimo estado das escolas que, combinado a professores mal-preparados e outros problemas, estimula a evasão dos estudantes. “É preciso escutar mais quem sai da escola e encontrar maneiras de fazer os jovens voltarem a estudar”, defende o criador da Agência. Por último, mereceu destaque a questão do assédio a mulheres, especialmente na Zona Oeste. “Uma garota nos contou que, minutos antes de ser vítima de um assalto, ela avistou um assediador e teve de escolher entre ser alvo do roubo ou do constrangimento”, relata Faustini.

Com a rede formada e os problemas identificados, a terceira etapa do ciclo se dedicou a estimular a busca de soluções. Dos 1600 participantes das rodas de conversa, 75 foram escolhidos para um processo de 3 meses, durante os quais desenvolveram projetos que chamassem a atenção para as questões que mais os preocupavam. Esse esforço deu origem à Semana Jovem Faz Para Jovem, na qual 9 dessas ações saíram do papel em diferentes pontos das Zonas Norte e Oeste. Um encontro em que jovens mães trocaram experiências na Pavuna, uma exposição com fotos de ex-alunos que abandonaram a escola e uma campanha de 3 dias contra o assédio em transportes públicos capitaneada por garotos de Santa Cruz foram algumas delas. Em paralelo, eventos como um seminário no MAR em que ex-integrantes da Agência falaram da importância da cultura em suas vidas para uma plateia de atuais membros da organização e a exibição na TV Globo do programa A Roda, com jovens debatendo os desafios de se viver no Rio hoje em 2 episódios, turbinaram a discussão sobre cidade, juventude e periferia.

No fim, o ciclo de ações permitiu que a Agência renovasse seu compromisso de apoiar a juventude carioca que vive longe dos centros por meio da formação de redes de diálogo. “Se o jovem de periferia precisa da cidade e ela é sua inimiga, a tarefa da Agência é resolver esse descompasso”, define Faustini. Ele conta que o trabalho possibilitou também visualizar a emergência de uma nova geração e seus valores. Se antes a postura “lacradora” dava prioridade ao poder e à vitória nas discussões, quem está agora saindo do ensino médio e entrando nas universidades apresenta, em geral, uma atitude mais reflexiva e uma maior preocupação em entender problemas e encontrar soluções. O criador da Agência dá como o exemplo o caso de um jovem da favela da Quitanda que, ao perceber o crescimento do número de crianças doentes em sua comunidade, conseguiu mediar um acordo entre traficantes e a Comlurb para limpeza do local. “Precisamos escutar mais esses jovens, que têm coragem, conexões e frescor para criar novas formas de sobreviver”, resume Faustini.