Futuro das Águas: As águas e o futuro das cidades | Mesa 2

Por Bruno Dorigatti

A segunda mesa do Seminário Futuro das Águas abordou a questão do ponto de vista das cidades, e qual o papel que elas podem desempenhar como pólo de políticas preventivas contra os efeitos negativos que as alterações ao meio ambiente provocam e o seu conseqüente impacto no regime das águas.

O economista e ambientalista Sergio Besserman, presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável e Governança Metropolitana da Prefeitura do Rio de Janeiro (Cadegom), abriu a mesa falando sobre a elevação das marés. O Rio de Janeiro é uma cidade água, cercado pela baía de Guanabara, baía de Sepetiba, o sistema lagunar, o litoral oceânico, os rios que descem das montanhas e alimentam o sistema lagunar e as baías. “Enfim, nós somos água”, afirmou Besserman. “E o futuro das cidades no mundo, a maior parte delas, cidades costeiras, está sendo afetada por um processo global, que é a mudança climática.

Um dos grandes cientistas da mudança climática, James Hansen (Leia entrevista com o físico), afirmou que é a subida do nível dos mares o que deve definir qual seria o limite do perigo, do que é perigoso para a humanidade.” O que se discute é quanto as marés vão subir, em decorrência da elevação da temperatura, se 2oC, 3oC, ou bem mais. Isso afetaria a infra-estrutura, traria mais custos sociais, especialmente se levarmos em conta a vulnerabilidade dos mais pobres, que devem arcar com as conseqüências principais.

Segundo Besserman, é o momento de despertar o interesse científico das pessoas, para que acompanhem e dêem atenção ao noticiário sobre essa questão, que mexe profundamente com as nossas vidas. Sobretudo porque ainda há incertezas grandes sobre a subida das marés. “No famoso relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), de 2007, a previsão é de que, no século XXI, haveria uma subida do mar, entre 20 e 60 centímetros, com 40 centímetros como o mais provável. Parece pouco, por exemplo, Copacabana está a um metro e meio do nível do mar, mas não é. Pois 40 cm seria a média, com uma ressaca, tempestade, lua cheia, seria bem mais que isso. A questão é que o problema é um pouco maior”, afirma Besserman. E explica que o IPCC não faz ciência, mas a varredura da ciência, compila as pesquisas desenvolvidas, compara e produz seu relatório anual, considerado um pouco conservador.

Para englobar toda a ciência relevante, o relatório de 2007 considera o que foi produzido até 2004, pois seria impossível ler tudo o que de relevante foi produzido em 2006. Outra questão é a posição conservadora do relatório. Onde está estabelecido que a previsão é de subida de 20 a 60 cm das marés nos próximos 100 anos, há um asterisco, que diz, grosso modo: “Se a degradação do gelo dos mantos da Groenlândia e do Pólo Sul for não-linear, a previsão sobe para 1,5 metros”. “Para vocês terem idéia”, acrescenta o economista, “o cientista norte-americano saiu batendo a porta em protesto contra os chineses, devido à posição muito conservadora, que não permitiu que colocassem essa informação no texto principal”. E o que significa esta degradação não-linear do nível do mar? O cálculo realizado para se chegar a 20-60 cm de elevação das marés considera, como fatores de expansão do nível do mar, a expansão térmica do oceano – porque a água quente tem mais volume que a á agua em temperatura ambiente – e o derretimento do gelo. “Só que o gelo, na Groenlândia e especialmente no Pólo Sul, é complexo. Alimenta rios, maiores que o Rio Paraíba do Sul, alimenta lagos, maiores que a Baía de Guanabara, eles se conectam, há frestas. É um sistema dinâmico. Como se comporta esse gelo? É o que os cientistas estão interessadíssimos em descobrir. Poderíamos ter notícias boas. Basicamente, o mecanismo é o seguinte: os mantos de gelo vão entrando lentamente no oceano, mas, ao mesmo tempo, está nevando sempre no miolo do continente antártico. Poderíamos descobrir que está nevando mais, devido a maior evaporação, com o aquecimento global, poderia estar juntando mais gelo. Só que não é isso, infelizmente, que a ciência está descobrindo. Ela está preocupada basicamente com duas coisas: 1. A água, com o aquecimento, derrete mais e se inflitra por esse sistema de mantos. Ao lubrificar o contato do mantos, acelera a velocidade com que eles se descolam e entram no oceano; 2. Esses mantos de gelo encontram as plataformas que, embora não interfiram no nível do mar, pois já estão na água, fazem resistência ao avanço do gelo”, explica Besserman. Essa previsão de elevação de 1,5 metros nos próximos 100 anos antecipa problemas. A população que vive no entorno da Baía de Guanabara, geralmente desassistida, pode enfrentar inundações, alagamentos em 10 anos. Na Baía de Sepetiba, que está sendo ocupada, o risco é o mesmo. “Acompanhem o noticiário, pois isso estará cada vez mais presente”, aconselha o economista. “A chave da vitória ou da derrota está na produção e disseminação do conhecimento a respeito dessas questões”, finalizou.

O que é fácil de verificar com uma pesquisa básica. Notícia da Folha de. S Paulo de 26 de fevereiro último informa que “o Ártico e a Antártida estão esquentando mais rápido do que se imaginava e seus mantos de gelo, especialmente o da Groenlândia, estão derretendo sob influência do aquecimento global. As conclusões são do maior esforço de pesquisa já feito sobre as regiões polares, que envolveu mais de 10 mil cientistas de 60 países, incluindo o Brasil”. Segundo David Carlson, coordenador científico do Ano Polar Internacional, em entrevista ao jornal, “os especialistas discordariam de um cenário de derretimento repentino, instantâneo ou catastrófico” e o resultado não pode ser considerado definitivo, mas estas pesquisas realizadas em 2008, no Ano Polar, “indicam um balanço de massa negativo, ou seja, mais gelo é perdido do que o que se acumula por precipitação de neve”. E a primeira região a sentir o efeito das mudanças na Antártida será a América do Sul.

Já a BBC Brasil noticiou no último domingo, 5 de abril, que “uma ponte de gelo que liga um bloco do tamanho da Jamaica a duas ilhas da Antártida rompeu-se. Cientistas afirmam que o rompimento pode indicar que o bloco Wilkins, como é conhecido o território, flutuará livremente, o que seria um sinal das mudanças provocadas pelo aquecimento global. O bloco Wilkins, que fica no oeste da Península Antártica, está diminuindo de tamanho desde a década de 1990”. Para o pesquisador David Vaughan, do instituto British Antarctic Survey, “o fato de que ele está diminuindo e agora perdeu conexão com uma das ilhas é uma indicação forte de que o aquecimento da Antártica está tendo efeito em outro bloco de gelo”, embora, como ressalta a matéria da BBC Brasil, o rompimento não deva ter impacto direto no nível dos mares, pois o gelo segue flutuando e não derrete, mas estas mudanças no clima da Antártica preocupam os cientistas.

A seguir, o geógrafo Dieter Muehe, da UFRJ, continuou falando sobre o nível das marés, sob o ponto de vista das informações geomorfológicas, exibindo mapas e dados estatísticos. Há 700 anos, afirmou Muehe, a maré tinha nível bem mais elevado, de 2 metros, chegando a picos de 4 metros, que depois veio decrescendo. A variação hoje conta com esse fator a mais, que é o aquecimento global, embora seja complicado e difícil afirmar peremptoriamente como ele age. Mas, segundo Muehe, “as visões catastróficas se baseiam em períodos muito curtos. Se ficarmos, nos próximos 100 anos, com elevação de 30 centímetros, o que ficaria dentro do apontado pelo IPCC, estaríamos seguinda a média de outros séculos”.

É preciso não esquecer também as diferenças entre os dois pólos. Enquanto o Ártico é o mar cercado de terra – onde a passagem a noroeste já foi liberada, devido ao derretimento do gelo, e a passagem a nordeste está a caminho –, a Antártica é terra cercada de mar. Logo, como os processos diferem consideravelmente de um pólo para outro, o nível das marés náo sobe de forma equânime em todo o planeta. A vulnerabilidade premente localiza-se nas regiões costeiras, sobretudo nas grandes cidades litorâneas, onde o risco de erosão, intensificação de tempestades, ciclones e inundações é maior. Nas grandes cidades situadas na costa o mar já sobe em condiçoes adversas, com simples marés cheias.

O que é preciso para reverter essa situação? “Hoje começa a se ter consciência, este seminário é exemplo disso, temos que multiplicá-lo as dezenas. É preciso também uma articulação federal, estadual, municipal para monitoramento das marés e do clima para que estas medições englobem mais tempo. As coisas têm que convergir, falta um serviço específico de monitoramento integrado. A mudança de mentalidade também é fundamental, sobretudo na nova geração. O colégio secundário já deveria incluir disciplinas que tratam do meio ambiente, das mudanças climáticas, do aquecimento global. É preciso desenvolver e popularizar o armazenamento de água das chuvas, além de ampliar o reflorestamento”, afirma Muehe.

Fechando a mesa, Andréa Margit, gerente de meio ambiente da Fundação Roberto Marinho (FRM), falou sobre o projeto Caminho das Águas, uma parceria da Agência Nacional de Águas (ANA) e da fundação. Segundo o site da FRM, “O projeto consiste na concepção e implementação de materiais educativos que serão distruibuídos em escolas da rede pública e em instituições e organizações não governamentais que trabalhem com a temática ambiental nas regiões das bacias hidrográficas do rio Doce, dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, do Paraíba do Sul e do São Francisco. Essas bacias destacam-se por abastecer ou passar por grandes cidades brasileiras e por estarem intimamente ligadas ao desenvolvimento econômico desses estados, sofrendo diretamente com poluição, assoreamento, erosão e desmatamento de matas ciliares.

O Caminho das Águas prevê a criação de 1.600 kits com material educativo, que serão distribuídos para 800 escolas públicas. Voltado para alunos de 5ª à 8ª série, ele tem como objetivos: 1. Disseminar conteúdos teóricos e práticos sobre o direito de todos à águas e a necessidade de usá-la de forma racional e eficiente, combatendo o desperdício e a poluição e estimulando a conservação dos recursos hidrícos; 2. Capacitar representantes de escolas e instituições para utilizar o kit como ferramenta educativa na reflexão de temáticas ambientais relacionadas à água e estimular a comunidade a participar do processo de gestão das águas no país.

Cada kit educativo contém DVDs com programas criados pelo Canal Futura especialmente para o projeto. Além disso, também foram incluídos outros programas do Futura que também tratam do tema água. Complementam o material dois cadernos de orientação para os professores, um mapa das regiões hidrográficas brasileiras, um CD com músicas sobre o tema, um CD Rom com todo o conteúdo didático e mais um jogo de RPG criado para tratar do assunto de maneira divertida e educativa”.

Conforme Andréa, o objetivo principal do projeto é “organizar as informações a respeito do assunto, articular as instituições, porvocar reflexões, mobilizar para reverter a deterioração ambiental. Ou seja, disseminar conteúdo sobre o estado e a gestão das águas, sobretudo em áreas de ocupação desordenada e enorme descarga de poluentes”.