O lugar das narrativas

Há livros circulando como nunca antes, em Manguinhos. Desde que a Biblioteca Parque foi inaugurada, em 2010, já foram feitos mais de 30 mil empréstimos domiciliares. Que ler é bom, quem ainda não sabe está aprendendo. Dos mais de cem mil usuários cadastrados, cerca de 4500 pessoas são frequentadoras de carteirinha. E não é apenas a leitura que atrai tanta gente. Os muitos projetos desenvolvidos – como o Regiões Narrativas, que vai para o segundo ano – tornam a biblioteca um território aberto para todas as linguagens e experimentações.

Em entrevista ao site d’O Instituto, o diretor da Biblioteca Parque de Manguinhos, Alexandre Pimentel, faz uma avaliação do projeto Regiões Narrativas, explica como funcionam os núcleos e laboratórios em andamento na BPM, e mostra o empenho em ampliar o público e estimular o diálogo em diferentes escalas. O esforço, ele garante, compensa.

O Instituto – Nesses dois anos, o que avançou e como tem sido a participação da comunidade nos projetos da BPM?

Alexandre – Até dezembro de 2011, foram feitas mais de 60 mil consultas ao acervo, que é composto de 26 mil livros, mil filmes em DVD e 1 milhão de músicas digitais, tudo disponibilizado gratuitamente para o público. São 40 pontos de internet, rede wi-fi para os cerca de 400 usuários diários. Com a inauguração de nosso Cineteatro e do Café Literário, prevista para o segundo semestre, e a elevação de um trecho da linha férrea que hoje separa parte das comunidades do complexo, esses números – e consequentemente nossos desafios – tendem a aumentar significativamente. Hoje, calculamos a nossa capacidade de atendimento em 300 mil usuário ano. A Biblioteca Parque de Manguinhos faz parte de uma rede que a Secretaria de Cultura do Estado está implementando através da Superintendência da Leitura e do Conhecimento, num trabalho muito bacana que está sob a gestão da Vera Saboya. No próximo mês, teremos a inauguração da Biblioteca Parque da Rocinha, e até o final do ano devemos ter a reabertura da Biblioteca Pública do Estado – totalmente reformulada – e inauguração de mais uma Biblioteca Parque, no Complexo do Alemão. Elas se juntam a uma rede onde já estão em funcionamento, além de Manguinhos, a Biblioteca Pública de Niterói, que é incrível, também.

O Instituto – Qual  o maior desafio que você tem enfrentado à frente dessa empreitada?

Alexandre – Acredito que um de nossos maiores desafios é estar preparado para esse aumento de frequência, sem perder as nossas características de sermos um espaço de convivência democrática, de experimentação e de produção de conhecimento. Desde que cheguei tenho procurado estabelecer alguns procedimentos para profissionalizar ainda mais nosso atendimento, estimular a formação continuada de nossa equipe e fortalecer as comunicações e diálogos em diferentes escalas e contextos: com a própria Superintendência, com os parceiros de projetos, com as demais instituições que atuam no território de Manguinhos. Outro grande desafio é fazer com que os laboratórios dialoguem e colaborem sempre que possível uns com os outros. E, por fim, estimular as práticas da leitura e a escrita em todas as faixas etárias, mas especialmente entre os jovens que frequentam a biblioteca.

O Instituto – Como o Regiões Narrativas se insere no contexto e na programação da BPM?

Alexandre – O Regiões Narrativas é um dos laboratórios que temos na Biblioteca Parque. Eles estão integrados através de um programa que chamamos PalavraLab – Programa de Laboratórios da Palavra, que é a costura dessas ações. Esse programa foi pensado visando o desenvolvimento de diferentes linguagens nas diversas formas de produção textual. Acreditamos que a formação de leitores e o (re)conhecimento de nosso acervo pode e deve ser realizado através do contato com as diferentes linguagens artísticas. Das leituras e interesses mais específicos, vamos chegando a uma ampliação dos horizontes e demandas.

O Instituto – É experimentação para além da leitura?

Alexandre – Os laboratórios são espaços de experimentação de mais longo prazo (oito a doze meses), com o aprendizado de novas técnicas, troca de experiências e que permitem a produção de novos sentidos e projetos. Isso significa que podemos ter ou não produtos mais concretos ao final, pois o que é mais significativo para nós é a riqueza do processo e as diferentes experiências estéticas compartilhadas. A ideia é que eles sejam núcleos de trabalhos permanentes, nos quais temos sempre um grupo ou pessoa convidada para coordenar suas atividades. Mas o que é permanente é o laboratório, não o grupo ou pessoa. Estes nos ajudam a desenvolver metodologias, propostas e conteúdos durante um período combinado. Não há rigidez nisso, mas acreditamos que esse seja o caminho mais saudável para todos.

O Instituto – Que avaliação você faz da primeira turma formada pelo Regiões Narrativas?

Alexandre – Entendo que o resultado tenha sido extremamente positivo por vários motivos, como a dedicação de um grupo excepcional de professores; o interesse e envolvimento dos alunos; e a qualidade dos trabalhos finais apresentados. A proposta deste laboratório foi muito feliz. Reunimos alunos das mais diferentes faixas etárias e promovemos o aprendizado de diferentes técnicas e a troca de saberes entre os grupos, a partir de suas experiências sobre o território e a cidade.

O Instituto – Como você vê uma turma formada por pessoas de faixas etárias tão distintas?

Alexandre – Acho muito positivo. São experiências distintas que se somam, trajetórias e visões que se cruzam. Tivemos, nesse primeiro grupo, desde jovens de 16 anos até duas pessoas que beiravam os oitenta. Acredito que determinadas estratégias devem estar voltadas para segmentos específicos por faixa etária, mas investimos muito nesse caminho da convivência, da troca e do aprendizado mútuo. Quando um jovem percebe o interesse e o acúmulo de experiências e informações de uma pessoa mais velha que está frequentando as aulas com ele, a percepção dele sobre essas pessoas se modifica positivamente. Do mesmo modo que uma pessoa mais velha, entendendo as expectativas do pessoal mais jovem, passa a vê-los de outro modo. Não se trata de “tolerância”, mas de um aprendizado compartilhado, que envolve, inclusive, os próprios professores. Ninguém passa por isso impunemente, sem se modificar.

O Instituto – Em um percurso de oito meses, é preciso fazer muitas adaptações ao longo do caminho?

Alexandre – Houve uma escuta atenta da coordenação do laboratório e dos professores. Por melhor que seja a proposta inicial, ela deve ser flexível o suficiente para atender às demandas do grupo real, aquele que se inscreve, passa pelas entrevistas e frequenta – de fato – as aulas. Isso não tenho dúvidas que aconteceu. Acompanhei diversos momentos de conversa entre professores, coordenação e alunos nesse sentido, sempre num clima muito positivo.

O Instituto – Como você vê a continuidade do projeto?

Alexandre – O “Regiões Narrativas” inicia agora sua segunda experiência na Biblioteca sob a coordenação do O Instituto e da Ilana Strozenberg, uma pessoa especial, que reuniu um grupo lindo para o desenvolvimento dos trabalhos e que acreditou muito nesse modelo. Ele é o nosso laboratório de Narrativas Digitais, que no futuro pode ser coordenado por outro grupo ou pessoa. Temos, no momento, os laboratórios de “Dramaturgia e Textos Teatrais”, coordenado pela Cia do Gesto, o de “Produção Editorial Multimídia”, coordenado pela Anna Dantes, e uma experiência de formação da equipe que trabalha com o público infantil através de um laboratório de leitura e escrita para a infância, este sob a coordenação do Instituto Ler é Abraçar. Mas a ideia é ampliar esses laboratórios, incluindo novas propostas como os de “Escrita Criativa” e “Memória e Território”.

O Instituto – O que faz esse tipo de trabalho valer a pena?

Alexandre – Em minha trajetória de educador e gestor cultural sempre tive uma preocupação e um compromisso com a transformação social muito forte. Participei de inúmeros trabalhos no campo da cultura, da memória e, em todos – fazendo uma revisão de trajetória inevitável agora que completo 40 anos (rsrs) – sempre identifico essa clara preocupação. Mas não me vejo trabalhando no que se chama normalmente de “projetos sociais”. Acho que minha contribuição é essa, de pensar e fazer parte dessa transformação através da mediação cultural e educacional. Aqui é um grande laboratório, sem dúvidas. São desafios e aprendizados constantes, que nos colocam diante da necessidade de encontrar caminhos novos, democráticos, negociados. Temos muito trabalho pela frente, mas acho que estamos num bom caminho. Não para chegar a algum lugar, porque o desafio é continuar permanentemente construindo esses caminhos.

 

SERVIÇO:
Regiões Narrativas – Laboratório de Narrativas Digitais
Oficinas: Cartografia Multimídia e Jornalismo Cidadão Conectado
Onde: Biblioteca Parque de Manguinhos
Endereço: Avenida Dom Helder Câmara, 1184 (antiga Suburbana)
Quando: todas as quintas-feiras, de 15h às 18h
Início: 17 de maio
Informações: 2334-8925