Da periferia

Pela programação, o conceito, e os burburinhos que se ouve por lá, a Lona Cultural Jovelina Pérola Negra, na Pavuna, promete fazer muito pelos moradores da região. Anderson Barnabé, que atende pela gestão do prédio de telhado verde anda às voltas com o muito que há por fazer no espaço. Mas não é de hoje que ele é um homem de muitas tarefas. De cinema, música, cultura e temas afins, ele entende bem.

Em entrevista concedida a Ilana Strozenberg, diretora acadêmica d’O Instituto, Barnabé conta sobre as muitas imersões possíveis em territórios onde é preciso intervir. Culturalmente.

Origens  

“Comecei a trabalhar com o Marcos Faustini, desde a concepção do projeto da escola de teatro em Santa Cruz. Esse foi um projeto que criamos há aproximadamente cinco anos, quando surgiu a oportunidade da gente dirigir um teatro da prefeitura, com muitos recursos, dentro da Cidade das Crianças. Santa Cruz não tinha teatro, esse foi o primeiro. E o Faustini é natural de Santa Cruz, ele veio do Cesarão – um dos maiores conjuntos habitacionais da América Latina. Santa Cruz tem 209 conjuntos habitacionais, o Cesarão é só um deles, e o Faustini veio de lá. Nos conhecemos na Escola de Teatro Martins Pena, que é a escola de teatro mais antiga da América Latina e é pública, do governo do Estado. Começamos a estudar lá em 1991, se não me engano. O Marcos vinha do Cesarão todos os dias. De lá até o Centro do Rio são aproximadamente 60 quilômetros, e ele vinha todos os dias para estudar.

Eu vim do interior de Minas Gerais, de uma cidade bem pequena, muito provinciana. Eu morava na periferia dessa cidade e caí no mundo. Vim para o Rio de Janeiro de carona. Para resumir um pouco: o Marcos se formou na Martins Pena, se tornou um diretor de teatro razoavelmente conhecido. Começamos a trabalhar juntos e, alguns anos depois, pintou a oportunidade de dirigir esse teatro em Santa Cruz, justamente no território de origem do Marcos. Para nós, receber um teatro de presente da prefeitura de Santa Cruz para administrar caiu como uma luva. Pegamos esse teatro e achamos que era pouco montar espetáculos e proporcionar só isso às pessoas de Santa Cruz. Resolvemos, então, criar uma forma de possibilitar às pessoas de Santa Cruz o acesso à cultura que o Marcos não teve. Ele tinha que pegar o trem ou o ônibus todos os dias e rodar 60 quilômetros para ir e mais 60 quilômetros para voltar para casa, para aprender a fazer teatro. Com esse teatro nas mãos, achamos que podíamos abreviar esse caminho para as pessoas que tinham a mesma vontade e o mesmo sonho que o Marcos. Assim, decidimos criar o projeto Reperiferia, que, a princípio, não tinha nome e investimos toda a a verba do teatro em oficinas, em cultura popular: fizemos oficinas de maracatu.”

Bate-bolas e a Escola Livre de Cinema

“O próprio Marcos dava as aulas de teatro e começou a apresentar conceitos mais teóricos para a galera de lá. O teatro que era feito em Santa Cruz até então era muito raso e, em geral, eram peças com temáticas da Disney. Então, começamos a aplicar o que sabíamos, formamos uma turma e essa foi a primeira escola de teatro livre da Zona Oeste. Enfim, a coisa foi deslanchando, a gente chegou a ter 300 alunos no projeto Reperiferia em Santa Cruz. Aí achamos que precisava ir mais além e resolvemos fazer um filme sobre a periferia para desmitificar um pouco a imagem desse universo que, em geral, é visto como marcado pela pobreza. Para isso decidimos mostrar os Bate-bolas, que são uma manifestação cultural e artística da periferia estigmatizada como violenta. O filme aborda o oposto do que todo mundo está acostumado a ver nos Bate-bolas: a tradição; a geração de renda; a subjetividade que está por trás de todos aqueles integrantes das turmas; o trabalho que dá para desenvolver as fantasias, para agregar a turma, enfim, fizemos esse filme e ele foi exibido nos cinemas.

Esse foi um divisor de águas no projeto Reperiferia. O prefeito de Nova Iguaçu viu o filme, se interessou muito pelo nosso trabalho e pediu que a gente criasse uma escola de cinema na cidade, para que os jovens de lá pudessem ter acesso às mesmas coisas que os jovens da periferia do Rio de Janeiro estavam tendo naquele momento. A gente foi para Nova Iguaçu com muito apoio do prefeito e patrocínio da Prefeitura. Foi assim que surgiu a Escola Livre de Cinema, gerida pelo projeto Reperiferia. Assim, o trabalho da Escola Livre de Cinema está fundamentado nos princípios do projeto Reperiferia e seu objetivo é repensara periferia do ponto de vista da cultura, numa ótica mais contemporânea.”

A vez da música

“Depois da Escola Livre de Cinema surgiu a Escola Livre de Música Eletrônica, que é um braço da escola de cinema, onde criamos, reproduzimos e finalizamos o áudio dos filmes realizados na escola de cinema. Lá tem também uma oficina de DJ, que é coordenada pelo nosso parceiro, o grupo Desenraizados, do movimento hip hop de Nova Iguaçu. Hoje, o projeto Reperiferia trabalha com a Escola Livre de Cinema, a Escola Livre de Música Eletrônicae, agora, estamos reabrindo a Escola Livre de Teatro, que ficou parada por dois anos, enquanto a gente instalava as escolas de Nova Iguaçu. E temos novos parceiros, como o Sesc, onde a gente desenvolve o projeto de coletores de imagens, em que vamos na casa das pessoas e registramos seus depoimentos, feitos a partir de fotografias. Com isso conseguimos gerar um sentimento de pertencimento, um olhar mais crítico sobre o território e fazemos com que as pessoas percebam a subjetividade que existe ali, dentro e em torno de cada um deles.”

Colisões

“Eu acredito que a única proposta do Colisões seja fazer com que se perceba o outro. A proposta é promover o encontro entre projetos de territórios espacial e socialmente diferentes para que se perceba que o universo de um está interligado com o do outro, que um só existe em relação ao outro. Esses dois mundos, de Nova Iguaçu e da cidade do Rio de Janeiro não existem em separado, fazem parte de uma coisa só. Mas parece que as pessoas não conseguem perceber isso, que existe uma cortina preta na frente do olho que não permite que se consiga enxergar.

O projeto se insere na proposta da Escola Livre de Cinema na medida em que a ELC tem o objetivo de trabalhar sobre o tema do território. Toda vez que se começa uma metodologia na escola, o território está inserido na nossa proposta. Só que, a princípio, nós trabalhamos o contexto de nosso alunos, o universo de Nova Iguaçu, para que, antes de perceber outros territórios, o aluno possa perceber o seu próprio.”

O que a periferia tem

“A periferia é sempre vista como um lugar ‘onde não tem’. A ideia da Escola Livre de Cinema é fazer com que o nosso aluno perceba o seu território a partir do que tem, não o contrário. Penso que, ao fazer com que ele entre em contato com o outro, com o território do outro, vamos conseguir potencializar ainda mais o olhar para o próprio território. O sentido de uma parceria entre o Reperiferia, a Escola Livre de Cinema, a UFRJ e O Instituto é, nesse sentido, criar um novo território através do contato com novos saberes, na busca de novos horizontes e parcerias. O conceito da Escola Livre de Cinema é justamente o de não se prender a um só tipo de saber. Na nossa escola dão aulas doutores, pessoas autodidatas que trabalham no mercado há anos e ex-alunos nossos. Juntamos esses saberes com a chancela de uma Escola Livre.

Investimos na troca de conhecimentos ao invés de uma transmissão unilateral. A palavra ‘aluno’ já é uma palavra ruim: aquele que não tem luz. Então, procuramos trocar experiências. Nesse sentido, o diálogo do Colisões faz com que o aluno perceba mais ainda qual é a sua importância, que desmistifique mais ainda todo esse processo de aprendizado. O cara que vem da periferia vê o mundo da universidade num plano muito distante. Mas ele está aqui, bem ao lado.”

Interferências e trocas

“A universidade está cada vez mais próxima de quem vem da periferia e das camadas populares. Tenho assistido a todos os encontros e tenho tido uma impressão muito boa. Acho que uma ‘colisão’ tem acontecido. Outras colisões podem surgir, que irão acontecer no plano subjetivo, na medida em que as histórias forem surgindo. No princípio, pedimos a cada um deles que trouxesse histórias com pessoas, que saíssem de casa e buscassem histórias em outros lugares, na rua, com vizinhos, no outro quarteirão. Muitos levaram histórias de sonho e, a princípio, achei que isso pudesse prejudicar o trabalho porque a ideia inicial do projeto era de que as pessoas fossem catadores de histórias reais. Mas a partir do momento em que as narrativas começaram a surgir e foram virando graffiti, sendo materializadas em imagens, um interferindo na imagem do outro, começou a acontecer um encontro. Isto é a colisão: interferência e troca a partir das histórias.”

Encontros

“Diante da quantidade de pessoas que moram nessa cidade, a gente tem o compromisso de tentar mudar as relações humanas que existem no Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro tem uma divisão social que, por si só, já é violenta. Seria impossível que essa divisão social não gerasse mais violência. Eu acho muito importante haver experiências como a do Colisões e acredito que elas têm que acontecer em outras esferas. Cerca de 90% da mão de obra que faz a Zona Sul e o Centro do Rio de Janeiro existirem e funcionarem diariamente vêm das periferias e das camadas mais carentes e populares. Se essa mão de obra parar um dia, se todas as comunidades carentes resolverem parar de trabalhar por um dia, o Centro e a Zona Sul ficarão parados.

A gente tem que partir do princípio de que essa cidade é uma só. A sociedade é uma só. Essa palavra “sociedade” é péssima, porque quando se fala ‘sociedade’, parece que ‘sociedade’ é uma entidade e não pessoas. Mas, de fato, se trata de pessoas com comportamentos distintos. A sociedade tem regras para que se seja incluído nela, mas muitas pessoas não têm nem a oportunidade de participar dessas regras. Temos que poder incorporar a cidade inteira. E vale lembrar que muitas comunidades da cidade só existem porque muitas pessoas vieram do Nordeste, de Minas Gerais, do Norte do país, em busca de trabalho. Essas famílias que moram em comunidades carentes ajudaram a construir o que a gente vê de bonito nessa cidade. É importante começar a olhar para o Rio de Janeiro como um lugar só e desenvolver projetos para que a gente perceba melhor os universos uns dos outros. Estamos muito acostumados a olhar para um universo só.”

Ligar da diversidade

“Na periferia e nas comunidades carentes existe muita coisa. Não é um bloco de gente toda igual que gera violência e pobreza. É um bando de gente diferente que faz coisas diferentes, que gosta de coisa diferentes e que mora no mesmo lugar. Tem gente que gosta de futebol, outros odeiam, tem dona de casa, taxista, professor, estudante, repórter. Se eu for enumerar aqui, não acabo. Não se pode continuar pensando que na periferia e nas comunidades carentes só tem bandido e gente ruim, ou que é muito simples acabar com a violência no Rio de Janeiro, que bastaria passar com um avião e jogar uma bomba na favela. Nas comunidades carentes existem pessoas distintas. Existe gente diferente que faz coisa diferente.”